NA PORTA DO HOSPÍCIO

Blog de musistoria :MUSISTORIA, NA PORTA DO HOSPÍCIO

Ernani Maller


Tocou a campainha da garagem do hospício e o guarda foi atender, abriu uma pequena uma janela que mostrava apenas parte do seu rosto no meio do grande portão de ferro, um senhor de meia idade aparentando muita tristeza perguntou:
_ É aqui que é o hospício?
_ É sim. Respondeu o guarda.
_ Eu vim me internar.
_ Quem mandou o senhor?
_ Ninguém, eu vim por minha conta, eu “tô” maluco.
_ Mas hoje é domingo, e só está o médico de plantão, ele só atende os pacientes que já estão internados, o senhor tem que voltar amanhã as dez da manhã e falar com o doutor Renato.
_ Mas caso de emergência, esse médico que está aí, não atende?
_ Atender ele atende, mas o seu caso não é de emergência.
¬_ Como não?
_ Caso de emergência é quando chega em camisa-de-força.
_ E onde eu consigo essa tal camisa-de-força?
_ Eu não sei não, é o pessoal da ambulância que tem.
_ Será que eu não posso dormir aqui para amanhã eu falar com o doutor? Eu sei que ele vai me internar mesmo.
_ Não pode não, o senhor tem que voltar amanhã. Mas eu trabalho aqui há duas semanas e já tenho alguma experiência, posso lê adiantar uma coisa.
_ O que? _ Perguntou o candidato a paciente.
_ O senhor não está maluco, não.
_ Como é que você sabe?
_ Eu sei por que o senhor afirma que está maluco, não é?
_ É.
_ Então? Quem está maluco, não sabe que está maluco, portanto, se senhor acha que está maluco, é porque o senhor não está maluco.
_ Tem certeza?
_ Tenho.
_ Então o que, que eu faço com essa tristeza, essa angustia no meu peito e essa vontade de chorar?
_ O senhor vai pra casa, toma um copo de água com açúcar, senta quietinho num canto, que isso passa.
_ Sério?
_ Sério.
_ Então “ta” bom, muito obrigado.
_ De nada.
Deve ter dado certo, o homem nunca mais voltou.

segunda 09 janeiro 2012 12:57


UMA SEGUNDA MEIA-NOITE

Blog de musistoria :MUSISTORIA, UMA SEGUNDA MEIA-NOITE

Ernani Maller

 

João era um seminarista, já havia seis anos que estudava para ser padre, era o que realmente ele queria. Desde sempre foi ligado à igreja católica. Sua mãe, que fora criada em uma escola de freiras, sempre se orgulhou da religiosidade da família, portanto, ela foi a base moral e religiosa do menino João. Desde muito moço João já ajudava nas missas, apesar de uma ou outra travessura, sempre foi um bom garoto. Até que aos treze anos foi mandado para o seminário, para alegria de  sua mãe, que não cabia em si de tanto orgulho, ao ver o filho seminarista, e dizia: imaginem, um padre na família.      

A vida no seminário era divertida, porém, alguns dos alunos não eram boas companhias, e foi com um desses alunos que João acabou tendo contato com diversas fotos de mulheres nuas e também fotos de cenas pornográficas. Por mais que tentasse, não consegui se desfazer de algumas fotos, que lhe foram presenteadas por Bernardo, um seminarista mais antigo, que tinha fama de fugir do seminário e sair com garotas. João sentia-se pecando, mas as fotos o ajudavam nas noites de solidão.   

Certo dia João caminhava por uma praia, quando viu um menino que escrevia algo na areia, João parou e ficou observando aquele menino. O menino olhava para a palma de uma das mãos e logo em seguida escrevia novamente no chão, até que muito curioso com aquilo João perguntou ao menino:_  O que você está fazendo? O menino respondeu _ Estou contando e catalogando todos os grãos de arreia de todas as praias do Planeta Terra. João riu e falou: _ Mais isso é impossível. Então o menino respondeu: _ A única coisa impossível, é alguém esconder algo do meu pai,  como aquelas suas fotos, por exemplo.  João Sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo,  olhou o horizonte, pensando na resposta do menino, quando tornou olhar a criança, ela havia sumido. João, muito confuso, entendeu que Deus havia lhe mandado uma mensagem bastante clara. Então decidiu, assim que retornasse ao seminário daria sumiço àquelas fotos. Continuou a caminhar pela praia, pensando no ocorrido, quando avistou uma senhora, bem velhinha, que estava à toa na praia, porém, quando João passou por ela, a velhinha murmurou: _ Ou some com o material até meia - noite, ou quem some é voçê. Desta vez João ficou apavorado, por que aquela senhora falou aquilo? Será que se referia às fotos? Será de quem era essa mensagem? Já que a primeira, dada pelo garoto, João havia atribuido à Deus, mas essa agora parecia mais do domônio, ou seriam as duas do demônio, e João é que estava sendo um arrogante e prentencioso achando que Deus havia lhe enviado uma mensagem diretamente? Era melhor voltar logo ao seminário e dar fim aquelas fotos, eram as únicas coisas de errado que ele possuia.

Ao chagar no seminário João foi abordado por dois colegas que precisavam tratar alguns assuntos com ele, assim foram para a cela de um deles e lá permaneceram por muitas horas conversando e bebendo do vinho que era utilizado nas missas, que Bernardo havia desviado, quando chegou em seu quarto João percebeu que já passavam da meia-noite. Sim, já eram meia-noite e vinte minutos e nada havia lhe acontecido. Sentiu um grande alívio, olhou as belas fotos que haviam sido motivo de tanta preocupação, depois as guardou e foi dormir em paz, sem perceber que cometia um erro fatal. João não atentou para o fato de o seu relógio estar uma hora adiantado, era horário de verão, portanto, houve uma segunda meia-noite, a meia-noite verdadeira, sua meia-noite derradeira. João nunca mais foi visto.

segunda 16 janeiro 2012 04:42


SONHOS DE PAPEL

Blog de musistoria :MUSISTORIA, SONHOS DE PAPEL

Ernani Maller

 

Éramos deuses sonhadores

Criando anjinhos de papel

Ou marchávamos soldados   

Da cabeça de papel

 

Sorria um eterno sol de ouro

Nos desenhos do papel

Será que hoje ainda navegam

Nossos barquinhos de papel?

 

Que levavam ilusões

A um futuro de papel

Ou será que naufragaram

Com nossos sonhos de papel?

terça 17 janeiro 2012 08:03


SORTE DE KOKURA OU AZAR DE TSUTOMU YAMAGUCHI?

Blog de musistoria :MUSISTORIA, SORTE DE KOKURA OU AZAR DE TSUTOMU YAMAGUCHI?

Ernani Maller

Há no Japão uma expressão que é “Sorte de Kokura”. Eu explico o porquê: Quando da Segunda Guerra Mundial, três cidade japonesas foram escolhidas como possíveis alvos das bombas atômicas: Hiroshima, Nagasaki e Kokura. No dia 6 de agosto de 1945, quando foi lançada a primeira bomba, a de urânio, que os americanos, em tom de deboche e pouco caso com seu poder de destruição, chamavam de Little Boy (garotinho), em Hiroshima, Kokura seria a segunda opção, caso em Hiroshima o tempo estivesse nublado. Como lá o tempo estava bom, os americanos lançaram, pela primeira vez na história, uma bomba de energia nuclear sobre uma população de civis inocentes, matando de uma só vez mais de 140 mil pessoas, que não tiveram nenhuma oportunidade de ao menos saber o que lhes atingiu.
O Coronel Paul Tibbets Jr. era o comandante do Grupamento 509o, que foi transferido para a pequena ilha de Tinian, no Arquipélago das Marianas, no meio do Pacífico, foi ele quem comandou o B-29, que levava na lateral o nome de sua mãe: Enola Gay. Voando a 9 mil metros de altitude, porém, desceu a 4.550 metros para lançar a bomba que explodiu a 500 metros do chão, transformando em vidro a terra em um raio de mais de 300 metros, provocando um desloacamento de ar com vento de mais de 800 kilômentros por hora.
Passaram-se três dias e os bombardeiros B-29 americanos voltaram à ação, desta feita, o alvo primário seria Kokura e o secundário Nagasaki, porém ao chegarem a Kokura o tempo estava nublado, então partiram para a segunda opção: Nagasaki, aí lançaram a segunda bomba, com carga atômica de plutônio, Fat Man (homem gordo).
Nas duas ocasiõs Kokura foi poupada, primeiro pelo bom tempo em Hiroshima e na segunda ocasião, pelo mal tempo em seu próprio território. Daí nasceu e expressão “Sorte de Kokura”, diz-se de alguém que está com muita sorte.
Morreu 11/01/2010, aos 93 anos, Tsutomu Yamaguchi, que na época da Segunda Guerra era morador da cidade Nagasaki, porém, estava resolvendo negócios em Hiroshima no dia em que foi lançada a primeira bomba. Ali ele foi medicado e voltou para sua cidade, Nagasaki. Três dias depois sofreu com a segunda bomba. Tsutomu Yamaguchi, até onde se sabe, foi o único sobrevivente dessas duas catástrofes causasdas pela intolerância do homem. Apesar dos ferimentos, Tsutomu Yamaguchi, presenciou a história, tornando-se um palestrante que falava em nome da paz, além de ter escrito livros e músicas sobre os episódios.
Na verdade os Estados Unidos pretendiam mostrar ao mundo, e principalmente à União Soviética, o seu poderio nuclear. Em 15 de agosto de 1945, diante da destruição causada pelas bombas, o Japão se rende, pondo fim à Segunda Guerra mundial. E inciciava-se a chamada Guerra Fria.
Em outubro de 1982, enquanto eu passava pela Praça D. Pedro em Petrópolis, minha cidade natal, ouvi alguém chamar pelo meu nome, era um músico amigo meu, que correndo ao meu encontro disse: olha estão precisando de um músico para se apresentar no Japão, e eu sugeri que você fosse, vá falar com o empresário que ele deve te escolher para fazer uma temporada lá. Eu respondi que iria depois falar com a tal pessoa, mais o meu amigo insistiu que eu fosse naquele momento. Acabei indo mais pela insistência dele, do que por acreditar que faria uma viagem para o outro lado do mundo. Eu não ia bem na profissão de músico e a autoestima estava muito baixa para acreditar em qualquer coisa, alias eu tinha ido ao centro da cidade para espairecer, esquecer um pouco as adversidades daquele momento da minha vida.
Bem, eu fui falei com o empresário e acabei sendo contratado para me apresentar na Boate Saci Pererê, justamente na cidade de Kokura, onde fiz a maior parte das minhas 180 apresentações no Japão.
Naquele 9 de agosto de 1945, em que a cidade de Kokura estava com o tempo nublado, muitos moradores podem ter achado que não era um bom dia, mais não sabiam a sorte que estavam tendo. Assim como eu não sabia que naquele dia de outubro de 1982, quando caminhava desolado pela cidade de Petrópolis, que também estava com sorte, pois tive a oportunidade de conhecer a “Terra do Sol Nascente” e a linda cidade de Kokura, foi muita sorte mesmo, quase uma “Sorte de Kokura”.
A vida tem dessas coisas, quando tudo parece perdido, lá vem a esperança de novo.

 

domingo 08 janeiro 2012 05:14


O CHAPÉU

Blog de musistoria :MUSISTORIA, O CHAPÉU

Ernani Maller

Certo dia percebi em cima da mesa da sala um chapéu, não lembrando de quem poderia ser, resolvi guarda-lo em cima da estante. No dia seguinte estava novamente o chapéu em cima da mesa, achei estranho porem não pensei mais no caso.
Meses depois me mudei da cidade Petrópolis para a cidade de Armação dos Búzios, ambas no estado do Rio de Janeiro. Uma bela manhã ao levantar-me, deparei com o chapéu no espaldar de uma cadeira na sala de estar, estranhei pois havia alguns dias ninguém me visitava, deixei o chapéu na cadeira e a noite o encontrei em cima da mesa, ai comecei a me preocupar e a pensar mas no caso. Na manhã seguinte o chapéu estava no mesmo lugar, porem na noite seguinte havia desaparecido.
Algum tempo depois naquele ano, fui a Petrópolis visitar minha mãe, nesta visita pedi a ela uma foto minha aos dois anos de idade para incluir em um trabalho biográfico, enquanto procurávamos a foto íamos vendo várias fotos antigas e fazendo comentários, até que surge uma foto de minha mãe ao lado de meu pai, que usava um chapéu idêntico ao que apareceu em minhas casas. Tive um arrepio, mas não comentei nada com minha mãe, mas resolvi levar também esta foto .
De volta a Armação dos Búzios mandei emoldurar a foto e a pendurei na parede. Retornei a minha vida normal, até que certo dia ao chegar em casa, vejo em cima do sofá encostado na parede sob a foto, o chapéu. Peguei-o e o examinei, comparei com o chapéu que meu pai usava na foto, era incrível a semelhança, detalhes como fivela, costuras, dobras e pequenas manchas não deixavam duvidas, era o mesmo chapéu, três dias depois ele desapareceu novamente e eu comecei a me perguntar o porque dessas aparições qual a sua freqüência? Então olhei no calendário era 21 de março, dia do aniversário de meu pai. Esperei o próximo ano e no dia 19 de março lá estava o chapéu sobre o sofá e desaparecendo no dia 21 de março. Passei a me lembrar do aniversário de meu pai, talvez esse seja o intuito do chapéu, me lembrar essa data.
Já se vão mais de dez anos desde a primeira aparição, não posso dizer que acho uma coisa normal, mas já espero a cada 19 de março, o seu aparecimento, e a cada ano ele aparece mais velho, mas desbotado, ganhou novas manchas e já não tem a antiga fivela, mas é o mesmo chapéu, o chapéu do meu pai.

segunda 09 janeiro 2012 12:46


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